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O que a ciência tem a dizer

A exposição à poluição do ar pode ser nociva a todos, especialmente a pessoas com doenças pulmonares, como indivíduos com asma, com bronquite crônica e/ou enfisema pulmonar (doença pulmonar obstrutiva crônica- DPOC), com fibrose pulmonar, transplantados de pulmão, com diabetes, hipertensão, doença coronariana, insuficiência cardíaca, além de idosos, gestantes, crianças e bebês.

Se você tem uma doença pulmonar, a exposição à poluição atmosférica pode piorar seus sintomas. Pode ter mais crises de asma, exacerbação de DPOC, dificuldade de respirar, chiado, tosse e irritação nasal e maior risco de infecção respiratória, como a pneumonia. Se você tem doenças do coração, quando exposto à poluição pode ter mais risco de ter arritmia cardíaca, de ter redução do fluxo de sangue nas coronárias e com isto angina (dor no peito) ou mesmo infarto do miocárdio.

A seguir, saiba mais sobre atividade física e poluição.

O que é atividade física

Atividade física engloba qualquer tipo de movimento dos músculos do corpo que requer energia. Isto inclui atividades que você pode realizar como parte da sua rotina diária, como por exemplo, jardinagem, limpeza ou caminhadas para as compras. Exercício é uma forma de atividade física planejada, estruturada, repetitiva e que tem como objetivo melhorar ou manter a forma física.

Ambos os tipos de atividade física, leve ou mais intenso, podem beneficiar a sua saúde e melhorar a sua qualidade de vida. Ser ativo é importante tanto para a população em geral quanto para pessoas que convivem com doenças crônicas.

O que é poluição do ar

A poluição atmosférica é composta por uma mistura de partículas e gases. Vários destes poluentes, sozinhos ou misturados, podem prejudicar sua saúde. É importante levar em consideração o impacto da poluição do ar, pois, quando realizamos atividade física, respiramos um volume maior de ar e os poluentes podem penetrar em maior quantidade e mais profundamente nos pulmões.

Existem dois principais tipos de ambientes com poluição do ar:

  • Ambientes externos ou abertos, que quando poluídos chamamos poluição do ar ambiental (poluição outdoor): os principais poluentes presentes são constituídos de material particulado, de gases como ozônio, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e dióxido de enxofre e de compostos orgânicos voláteis, como aldeídos e hidrocarbonetos aromáticos. As principais fontes geradoras são os veículos automotivos e as fábricas, exceto o ozônio, que é produzido por reação fotoquímica envolvendo óxidos nitrosos e compostos orgânicos voláteis, induzida pelos raios ultravioletas do sol.

  • Poluição do ar em locais fechados (poluição indoor): a poluição em locais fechados, além de receber parte da poluição ambiental externa, cuja concentração varia se janelas estão fechadas e da existência e qualidade dos sistemas de filtragem de ar, pode ser gerada por várias fontes, como: aquecedores, lareiras, fogões a gás e à lenha, materiais de construção, produtos liberados de mobílias (solventes, colas), produtos de limpeza, sistemas de ventilação sujos e fumaça da queima de tabaco (cigarro, charuto, narguilé).

O que é

Exercícios físicos: Fazer exercícios físicos regularmente (três ou mais dias por semana), preferencialmente em ritmo leve a moderado (atividade é considerada moderada quando ocorre aumento da frequência cardíaca e respiratória, mas é possível conversar confortavelmente. É considera intensa ou vigorosa quando ocorre aumento da frequência cardíaca e respiratória e a conversação é difícil), retarda a incidência de doenças crônicas cardiovasculares, respiratórias, metabólicas, mentais e cânceres; auxilia no tratamento de doenças como diabetes, hipertensão, obesidade, osteoporose, depressão, ansiedade, doença pulmonar crônica, reduz a mortalidade e está associado a uma melhor qualidade de vida. Em 2010, estudo com dados de 187 países estimou que a inatividade ou baixa atividade física fora responsável por cerca de 3,2 milhões de óbitos em todo o mundo.

Poluição do ar: A exposição a poluentes pode ocorrer de forma aguda, ou seja, por grandes variações diárias de poluentes, ou de forma crônica, ao longo dos anos, como acontece com quem nasce e/ou vive na maioria das médias e grandes cidades. Ambas as formas de exposição podem levar ao maior risco de desenvolver e de morrer em decorrência de doenças cardiovasculares, respiratórias, infecciosas e câncer de pulmão. Um abrangente estudo epidemiológico estimou em cerca de 3,4 milhões os óbitos globais associados à poluição do ar em 2010¹.

Exercícios e Poluição: ainda não esta bem estabelecido o adequado balanço da prática de atividades físicas em ambientes poluídos. Entretanto, os estudos disponíveis até o momento, sugerem que para indivíduos saudáveis ou com doenças controladas, fazer exercícios regularmente, mesmo em ambientes com concentrações de poluentes acima dos valores limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (ver Tabela 1), supera os efeitos negativos da maior quantidade de poluente inalada e depositada nos pulmões decorrente do aumento da ventilação, da velocidade do ar inspirado, da redução do clearance mucociliar nasal (mecanismo do sistema respiratório de depuração das partículas inaladas) e do aumento da respiração pela boca (que elimina o filtro nasal) que ocorre durante o exercício. Em indivíduos mais suscetíveis - crianças, idosos, com doenças crônicas do coração (insuficiência cardíaca, doença coronariana), com hipertensão arterial, diabetes e com doenças pulmonares crônicas (asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, fibrose pulmonar) é preciso maior precaução. O adequado controle clínico da doença é necessário, além da orientação médica quanto ao tipo de exercício que poderá ser praticado, que deve ter intensidade adaptada e evolução progressiva.

Poluição contribui para sedentarismo: Estudo recente revelou que indivíduos, mesmo sadios, não obesos, que moram em locais com maiores níveis de poluentes, realizam menos exercícios físicos quando comparados com os que moram em ambientes com melhor nível de qualidade do ar. Isso sugere que a poluição possa ser um fator desencorajador para a realização de exercícios.

Poluição, exercícios físicos e clima: Recomenda-se que qualquer indivíduo evite fazer exercícios em ambientes poluídos, em horários de pico de tráfego nas cidades, em vias de tráfego intenso de veículos. Isto é mais relevante para os grupos de indivíduos mais suscetíveis, antes referidos. Também devem todos evitar realizar exercícios em ambientes ao ar livre quando a umidade relativa do ar for muito baixa, pois nestes dias a concentração de poluentes tende a ser maior e as vias respiratórias, porta de entrada do ar que respiramos, trabalham com mais dificuldade para umidificar o ar e se defender dos poluentes nele presentes. O mesmo vale para a realização de exercícios em ambientes com temperaturas elevadas, que dificultam a dissipação de calor gerado pelo exercício. O intenso calor pode levar à desidratação do corpo e das vias aéreas e ao aumento da temperatura corpórea, com risco para ocorrência de lesões musculares, cardíacas, renais e cerebrais.

Nos comentários a seguir são apresentadas uma série de informações, orientações e dicas sobre a realização de exercícios físicos nas grandes cidades, que em sua maioria apresentam elevadas concentrações de poluentes na maior parte do ano. As recomendações não visam restringir a realização dos exercícios físicos, mas sugerir alternativas e dicas para a sua realização com mais proteção para sua saúde.

Tabela 1. Principais poluentes, fontes geradoras e valores limites

Poluentes Principais Fontes geradoras

      Limites de Exposição recomendados

       Brasil*                               OMS1

Poluentes primários
Material Particulado (MP) - µg/m³) Emissão de veículos automotores, indústrias, queima de biomassa

MP10 (M24hs2):150

MP10 (MAA): 50

MM10 (M24hs): 50

MP10 (MAA): 20

MP2,5 (M24hs): 25

MP2,5 (MAA): 10

Dióxido de enxofre (SO2) µg/m³) Indústrias, usinas termoelétricas, veículos automotores- queima de carvão e óleos

SO2 (M24hs2): 365

SO2 (MAA): 80

SO2 (M24hs): 20

SO2(M10min): 500

Dióxido de nitrogênio (NO2) - µg/m³ Veículos automotores, usinas termoelétricas, indústrias- combustão a elevada temperaturas

NO2 (M1h2): 320

NO2 (MAA): 100

NO2 (M24hs): 200

NO2 (MAA): 40

Monóxido de carbono (CO) - ppm Combustão incompleta de óleo, gás natural, gasolina, carvão mineral, queima de biomassa.

CO (M1h2):35 ppm

CO (M8hs): 8 ppm

CO (M1h): 26 ppm

CO (M8hs): 8 ppm

Compostos orgânicos voláteis (COV) Emissão veicular- Vapores de hidrocarbonetos (aldeídos, cetonas) Não estabelecido Não estabelecido
Poluentes secundários
Ozônio (O3) - µg/m³ Formado a partir da reação entre a luz solar e óxidos de nitrogênio e COV O3 (M1h): 160 O3 (M8hs): 100
Material Particulado (MP) - µg/m³ Formado a partir de reações fotoquímicas envolvendo gases como o NO2

MP10 (M24hs2):150

MP10 (MAA): 50

MP10 (M24hs): 50

MP10 (MAA): 20

MP2,5 (M24hs): 25

MP2,5 (MAA): 10


Nota: *
Resolução CONAMA No03/90; ¹Organização Mundial da Saúde 2006; MAA: média aritmética anual; M: média; 2Não deve ser excedido mais do que uma vez por ano; ppm: parte por milhão; M1h: maior média diária de 1 hora; M8hs: maior média diária de 8 horas. No estado de São Paulo está em vigor programa para redução progressiva dos limites para acompanhar as recomendações da OMS, estando os limites atuais em vigor ainda muito distantes (http://ar.cetesb.sp.gov.br/padroes-de-qualidade-do-ar/).

 

 

Recomendações e dicas

1. Considere a sua rota e localização

Quando exercitar-se em um bairro ou cidade, utilize parques, espaços públicos e percursos com zonas de menor emissão possível de poluentes. Um crescente número de pesquisas mostra que espaços verdes contribuem para a nossa saúde e bem-estar.

 2. Mantenha uma distância saudável das ruas

Se você está pedalando, correndo ou caminhando ao ar livre, é melhor evitar, sempre que possível, que seja próximo a ruas ou avenidas com maior tráfego de ônibus, caminhões e elevado tráfego de veículos em geral. Estudos revelam que o nível de poluição é maior em ruas mais movimentadas, e que a concentração de poluentes cai quanto mais longe você estiver da rua. Por exemplo, você estará exposto a menores níveis de poluição se estiver pelo menos 100 metros (se possível, 400 metros) de distância do fluxo maior de tráfego de veículos. Considerar a utilização de uma rua paralela, mais silenciosa e com menor tráfego.

3. Fuja dos veículos

Quando pedalar, correr ou caminhar próximo a carros, motocicletas, caminhões ou outros veículos, você irá inalar altos níveis de poluentes que podem ser prejudiciais à sua saúde. Se for seguro, mantenha a distância e afaste-se desses veículos o máximo possível para tentar reduzir sua exposição.

4. Evite ruas movimentadas com construções altas

A poluição do ar tende a ficar presa nas ruas com prédios altos em ambos os lados, com escassos espaços entre as laterais. Esse tipo de rua normalmente apresenta baixa qualidade do ar e deve ser evitada para a prática de exercícios regularmente. Outro ponto a ser observado são os faróis de trânsito, quando os carros se movem para avançar o sinal, após um período parado, eles emitem maior quantidade de poluentes. Isto reforça a importância das ciclovias; procure ficar nas ciclovias e não atrás dos veículos.

5. Verifique o índice de qualidade do ar

Os níveis de poluição dependem do tipo de poluente, localização e clima local. Muitas agências governamentais possuem estações de monitoramento que continuamente realizam medidas e reportam os níveis de diferentes poluentes. Algumas também apresentam previsões, o que pode ser utilizado na decisão de quando realizar o seu exercício ao ar livre. Procure o serviço mais específico para a sua localidade. Você pode encontrar os registros de qualidade do ar no sitio do órgão de controle ambiental de sua cidade e ou estado. Em São Paulo (http://ar.cetesb.sp.gov.br/padroes-de-qualidade-do-ar/; http://sistemasinter.cetesb.sp.gov.br/Ar/php/ar_dados_horarios.php)

6. Verifique a previsão do tempo

A poluição do ar tende a ser maior em dias quentes e ensolarados, enquanto que o ar tende a ser mais limpo em dias chuvosos e com vento. Se você apresenta alergia ao pólen, você deve ter maiores problemas nos dias em que os níveis de pólen são mais altos, pois o pólen pode interagir com a poluição. Verifique a previsão do tempo local para maiores informações.

7. Evite exercitar-se em horários e períodos de trânsito intenso

Tente evitar atividades físicas ao ar livre durante os períodos de trânsito ou em áreas de tráfego intenso. Escolha uma alternativa, rotas mais tranquilas ou outro horário para exercitar-se.

8. Escolha opções saudáveis de deslocamento

Utilizar o carro contribui para a geração de poluentes do ar além da emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e de ruído. Porque não considerar a utilização do transporte público ou utilizar uma "opção ativa", como caminhar ou pedalar? Essas opções vão ajudá-lo a alcançar as suas metas diárias de atividade física, enquanto isso, você contribui para um meio ambiente mais limpo.

9. Evitar exposição à poluição presente em ambientes internos ou fechados e à fumaça ambiental da queima do tabaco

Se você exercita-se em uma academia, em casa ou outro local fechado, você pode entrar em contato com poluentes do ambiente ou da fumaça do tabaco, assim, vale a pena considerar os poluentes em potencial nesses ambientes e como você pode se proteger deles. Varrer e usar produtos de limpeza ou purificadores de ar pode reduzir a qualidade do ar, desta forma, tente evitar realizar os seus exercícios logo após a atividade de limpeza. Em ambientes que usam aparelhos de ar condicionado, caso os filtros sejam limpos com frequência, podem reduzir a entrada de poluentes do ar externos. Atentar para a umidade relativa do ar, pois os equipamentos tendem a reduzir a umidade, o que se agrava nos dias mais secos. É preciso cuidados na limpeza dos equipamentos e avaliar suplementação de água nos dias mais secos.

10. Seja ativo!

Não tenha medo de ser ativo e exercitar-se. Especialistas da área da saúde, em atividades físicas e em meio ambiente concordam que os riscos para a saúde para quem se exercita regularmente é muito menos significativo que os riscos de um estilo de vida inativo.

11. Procure se hidratar regularmente antes e durante a realização de exercícios.

Não espere ter sede. Cuidados com hidratação devem ser observados por indivíduos que apresentam doenças crônicas renais e cardíacas, que devem seguir recomendações médicas quanto à restrição de ingestão de líquidos;

12. Mantenha ou passe a inserir regularmente em sua dieta o consumo de frutas, verduras, legumes e grãos integrais.

A baixa ingestão desses alimentos é uma importante causa de doenças de óbitos em todo o mundo. Isto ajuda manter e reduzir peso, quando necessário, contém fibras, vitaminas e agentes antioxidantes que ajudam preservar sua saúde. Não há recomendação de para uso de suplementos antioxidantes;

13. Quando usar máscara para a prática de atividade física.

 O uso de máscaras com filtro para material particulado fino e para gases reduz a inalação de poluentes, mas seu uso diário e por longos períodos é desconfortável, reduz a capacidade de exercício e há necessidade de trocas de filtros ou de mascaras, cuja é frequência é maior quanto maior for o tempo de uso e a concentração de poluentes. A recomendação do uso esta voltada para situações de níveis de poluição elevados e principalmente para indivíduos com doenças cardiovasculares ou com alto risco para eventos cardiovasculares (diabéticos, idosos, como síndrome metabólica) ou com doença pulmonar crônica;

14. Recomendação médica para paciente cardiovascular.

Pacientes com doença cardiovascular instável ou elevado risco para eventos cardiovasculares devem evitar ambientes com elevados níveis de poluição;

15. Áreas mais propensas à poluição.

Quando for realizar atividade física em locais abertos leve em consideração ser provável que as seguintes áreas são mais propensas a estarem mais poluídas: grandes cidades, ruas e avenidas de tráfego intenso e áreas industriais. Se sua casa, academia de ginástica, piscina coberta ou outros ambientes fechados destinados à prática esportiva têm baixa qualidade do ar, pode haver prejuízo à sua saúde.

DÚVIDAS FREQUENTES

Quanto e qual tipo de exercício eu devo fazer?

Existe um nível de exercício e atividade física adequado para todos, mesmo se apresentar uma doença cardíaca, pulmonar ou não. Pode ser caminhada, natação, ciclismo, esportes coletivos, treino de força e atividades do dia-a-dia, como jardinagem, limpeza, desde que estas sejam suficientes para aumentar a frequência respiratória de forma moderada.
Se você não sabe quanto ao tipo ou quantidade de atividade que você deve fazer, você deve perguntar a um profissional da saúde.

Porque eu devo considerar a qualidade do ar quando me exercito?

Quando você é fisicamente ativo, você respira com maior frequência e inala mais ar para dentro dos pulmões, do que quando você está inativo. Se a qualidade do ar é ruim, você pode inalar uma quantidade maior de poluentes prejudiciais.

Além disso, durante o exercício, você pode estar mais propenso a respirar pela boca do que pelo nariz. Diferentemente do nariz, a boca não está apta a filtrar algumas partículas maiores de poluentes do ar e assim impedi-las de chegarem aos pulmões. Portanto, respirar pela boca pode levar a uma entrada maior de poluentes nas vias aéreas. Durante o exercício, as partículas menores podem atingir os pulmões mais profundamente.
Quanto mais poluente você inalar, mais você pode sofrer seus efeitos negativos.

Texto elaborado pelos médicos Ubiratan de Paula Santos e Rafael Futoshi Mizutami e Ana Luiza Panico e pela fisioterapeuta Izabela Campos Cozza, da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor)- HCFMUSP.