Estudo Sprint: o impacto na abordagem da hipertensão

Baixar e manter a pressão arterial próximo aos valores de 120 x 80 mmHg sempre pareceu o desejável para os médicos que cuidam de pacientes hipertensos. No entanto, os efeitos adversos de um tratamento mais agressivo para alcançar essa meta, principalmente nos indivíduos mais velhos e com risco cardiovascular alto, deixavam os especialistas em dúvida se os benefícios dessa terapia mais incisiva compensariam os efeitos colaterais que costumam acompanhar tal tipo de tratamento nesse grupo de pacientes. Uma pesquisa coordenada pelo National Institute of Health, dos Estados Unidos, apresentada no Congresso da American Heart Association, em novembro último, e publicada simultaneamente no periódico New England Journal of Medicine, consolida o benefício de se atingir metas mais baixas: valores mais próximos de 120 mmHg são os ideais para serem buscados (até então, a recomendação era apenas manter abaixo de 140/90 mmHg).

Os resultados desse estudo, aguardado ansiosamente pela comunidade médica internacional, podem mudar as recomendações de tratamento da doença nesse perfil de hipertenso no mundo todo, afirma o Dr. Luiz Bortolotto, diretor da Unidade Clínica de Hipertensão do Incor. “Inclusive, neste momento, estamos elaborando a VII Diretrizes Brasileiras de Hipertensão, que deverá nortear os médicos no tratamento dessa doença que acomete 30% da população do Brasil e que é uma das principais causas de morte por doenças cardiovasculares (infarto e acidente vascular cerebral) no mundo”, diz o Dr. Bortolotto.

O estudo Sprint (veja a íntegra do artigo) incluiu quase 10.000 pessoas acima de 50 anos de idade (média de 68 anos), com diagnóstico de hipertensão arterial e risco cardiovascular elevado (segundo a escala de Framingham), embora sem a presença de diabetes e que não tenham tido AVC. Seu propósito foi avaliar qual é a meta ideal e segura para abaixar a pressão arterial sistólica (máxima) em indivíduos de meia idade ou idosos com alto risco cardiovascular, sem efeitos colaterais mais sérios.

“Pacientes dentro desse perfil de maior risco e que apresentem pressão arterial sistólica entre 140 e 180 mmHg devem ser tratados, a partir de agora, com o objetivo de se atingir uma pressão próxima de 120 mmHg ,desde que bem tolerados”, explica Bortolotto.

O médico do Incor alerta que os números de diagnóstico de hipertensão na população em geral utilizados atualmente (maior ou igual a 140/90 mmHg) continuam valendo, “embora devamos ter mais atenção aos valores que já se encontram acima de 130/85 mmHg”, esclarece o especialista em hipertensão.

No que se refere à mortalidade, diz o médico, os benefícios do tratamento mais agressivo, com a meta de reduzir a pressão máxima para valores próximos de 120 mmHg, mantém-se até mesmo nos pacientes acima de 75 anos de idade. No entanto, nestes indivíduos mais velhos, já sabem os especialistas, o rebaixamento da pressão até esse valor exige cautela, pois ele costuma vir acompanhado de efeitos colaterais indesejados (hipotensão, anormalidades de eletrólitos, sincope e diminuição da função do rim).

A pesquisa

O estudo do National Institute of Health, intitulado Randomized Trial of Intensive versus Standard Blood-Pressure Control (Sprint), dividiu os participantes em dois grupos de tratamento medicamentoso: o primeiro com a meta de atingir uma pressão sistólica (máxima) ao redor de 120 mmHg, e o segundo, de 135 mmHg (meta padrão hoje recomendada).

A pesquisa foi interrompida precocemente, conta o Diretor da Unidade Clínica de Hipertensão do Incor, uma vez que os benefícios da redução da pressão arterial próximo ao patamar de 120 mmHg, em termos de diminuição de eventos combinados (infarto, insuficiência cardíaca, angina, AVC e morte), apareceram já no primeiro ano de acompanhamento dos participantes. O impacto foi mais significativo na redução de insuficiência cardíaca.

Ao final de aproximadamente três anos, o grupo de tratamento intensivo atingiu uma média de pressão sistólica de 121.4 mmHg (redução de 13 mmHg), apresentou 25% menos eventos cardiovasculares combinados (infarto, AVC, angina, insuficiência cardíaca) e um risco de morte 27% menor do que o outro grupo, que atingiu uma média de pressão sistólica de 136 mmHg (redução de 5.1 mmHg).

Os resultados do Sprint, esclarece Bortolotto, não podem ser extrapolados para pacientes com hipertensão mais grave, idosos acamados e com alta fragilidade, indivíduos abaixo de 50 anos ou diabéticos. “O estudo não abarcou esse perfil de paciente, portanto, precisamos aguardar novos estudos para essa população, que tornem seguras quaisquer mudanças de parâmetros no tratamento”.

O mais importante, diz o especialista do Instituto do Coração, é sempre buscar o melhor controle da pressão arterial com a combinação de medicamentos adequada e hábitos de vida saudável. “Assim conseguiremos reduzir de forma importante as principais causas de morte em nosso País, que são as doenças cardiovasculares”, afirma o médico.